Um conto de W. Somerset Maugham
(Paris, França, 1874 – Nice, França, 1965)
Tradução: Fernando Barreto
Este conto compõe o livro de viagens de W. Somerset Maugham, “Sobre um Biombo Chinês“, de 1922, e retrata sua viagem à China entre 1919 e 1920. Centra-se numa conversa com um erudito chinês (identificado como Ku Hung-Ming) em Chongqing.
O conto reflete o interesse mais amplo de Maugham pelo Oriente, que ele utilizava para encontrar rejuvenescimento estético e escapar da cultura ocidental.
O Filósofo (1925)
Foi para mim algo surpreendente encontrar uma cidade tão vasta em um lugar que me pareceu tão remoto. Olhando desde suas portas ameadas para o ocidente podiam divisar-se as nevadas montanhas do Tibete. Era tão populosa que só era possível caminhar com comodidade pelas muralhas, e um passante rápido levava três horas para completar o perímetro. Não havia ferrovia em mil milhas ao redor, e o rio junto ao qual se encontrava era tão pouco profundo que apenas alguns juncos de leve porte podiam navegá-lo sem perigo. Cinco dias em sampana eram necessários para alcançar o Yangtzé Superior. Por momentos, alguém se perguntava se os trens e os vapores são tão necessários para o transcurso da vida como acreditamos os que os utilizamos todos os dias, pois ali um milhão de pessoas estavam inteiramente dedicadas ao comércio, à arte e à reflexão.
E ali vivia um filósofo de fama, o desejo de ver o qual havia sido para mim um dos principais incentivos de uma viagem um tanto árdua. Tratava-se da máxima autoridade da China na sabedoria de Confúcio. Dizia-se que falava com fluência o inglês e o alemão. Havia sido durante muitos anos secretário de um dos maiores vice-reis da imperatriz viúva, mas agora vivia em retiro.
Em certos dias da semana, no entanto, abria suas portas àqueles que desejavam aproveitar sua erudição e discorria sobre os ensinamentos de Confúcio. Tinha um grupo de discípulos, mas era muito reduzido, pois a maioria dos estudantes preferia, à sua modesta morada e suas severas exortações, os suntuosos edifícios da universidade estrangeira e a proveitosa ciência dos “bárbaros”, que só era mencionada diante dele para ser desdenhosamente reprovada. Por tudo o que soube dele deduzi que se tratava de um homem de caráter.
Quando anunciei meu desejo de conhecer pessoalmente este distinto personagem, meu anfitrião se ofereceu de imediato para concertar uma entrevista, mas os dias passavam e nada acontecia. Tentei averiguar algo, e meu anfitrião deu de ombros.
—Enviei uma garota para dizer-lhe que venha —disse—. Não sei por que ainda não apareceu por aqui. É um velho algo intratável.
Não me parecia próprio dirigir-se a um filósofo de forma tão altiva, e, portanto, mal me surpreendeu que tivesse ignorado uma intimação como essa. Enviei-lhe uma carta perguntando-lhe, nos termos mais corteses que pude encontrar, se me permitiria fazer-lhe uma visita, e ao cabo de duas horas recebi uma resposta marcando-me para a manhã seguinte às dez.
Fui conduzido em uma liteira, e o caminho parecia interminável. Atravessei ruas e mais ruas, cheias de gente no início, desertas depois, até que cheguei finalmente a uma casa, solitária e silenciosa; diante de uma pequena porta situada em um longo muro branco meus carregadores desceram a liteira. Um deles bateu, e depois de um tempo considerável abriu-se uma portinhola, pela qual apareceram um par de olhos negros; houve um breve diálogo e, por fim, fui admitido. Um jovem de rosto pálido e aspecto marchito, pobremente vestido, fez-me um gesto para que o seguisse. Não sei se era um criado ou um discípulo do grande homem. Passei por um pátio descuidado e fui introduzido em uma sala longa e baixa, escassamente mobiliada com uma escrivaninha americana de cortina, um par de cadeiras de madeira negra e duas mesinhas chinesas. Havia contra as paredes algumas estantes nas quais alinhava-se grande número de livros: a maior parte deles era, naturalmente, chinesa, mas havia também muitas obras científicas e filosóficas em inglês, francês e alemão, e centenas de números avulsos de revistas especializadas. Nos espaços de parede que não estavam ocupados por livros pendiam pergaminhos nos quais, com diversas caligrafias, havia textos escritos que suponho seriam citações de Confúcio. O piso carecia de tapete. Era uma sala fria, desnuda e desconfortável. Seu aspecto sombrio só era suavizado por um crisântemo amarelo que se erguia sobre a escrivaninha em um alto vaso de cristal.
Aguardei alguns momentos, e o jovem que me havia introduzido trouxe um bule, duas xícaras e um maço de cigarros da Virgínia. Ao mesmo tempo em que ele saía, entrou o filósofo. Apressei-me a expressar meu agradecimento pela honra que me fazia permitindo-me visitá-lo. Ele me indicou uma cadeira e serviu o chá.
—Sinto-me realmente lisonjeado de que o senhor tenha sentido desejo de me ver —respondeu—. Seus compatriotas tratam apenas com cules e agentes compradores, e acreditam que todos os chineses devem ser uma coisa ou outra.
Atrevi-me a protestar, mas não havia alcançado a compreender o sentido de sua sutileza. Reclinou-se em sua cadeira e olhou-me com expressão zombeteira.
—Acreditam que não têm mais que fazer um sinal e nós devemos ir.
Compreendi que ainda se encontrava ressentido pela desafortunada mensagem de meu amigo. Não soube o que responder, e murmurei algo a modo de desculpa.
Era um homem idoso, alto, com uma fina trança grisalha e grandes olhos brilhantes sob os quais haviam-se formado pesadas bolsas. Seus dentes estavam quebrados e descoloridos. Era extremamente magro e suas mãos, pequenas e transparentes, eram enrugadas e ganchudas. Haviam-me dito que costumava fumar ópio. Estava vestido com uma túnica negra muito gasta, um pequeno gorro negro e umas calças cinza-escuras atadas no tornozelo, tudo isso muito sujo e descuidado. Estava observando-me atentamente. Não sabia que atitude tomar e tinha o aspecto de um homem que se põe na defensiva. O filósofo ocupa, naturalmente, um posto real entre aqueles que se interessam pelas coisas do espírito; segundo nos ensinou Benjamim Disraeli, a realeza deve ser tratada com abundantes lisonjas. Aproveitei essa doutrina, e notei de imediato certo afrouxamento em sua expressão e em todo o seu aspecto. Era como um homem que tivesse estado posando, rígido e forçado, para que lhe tirassem uma fotografia, mas que ao ouvir o clique do obturador abandona sua rigidez e volta à sua natural desenvoltura. Mostrou-me seus livros.
—Doutorei-me em filosofia em Berlim —disse-me—, e depois estudei por algum tempo em Oxford. Mas os ingleses, permita-me dizê-lo, não têm grande aptidão para a filosofia.
Ainda que tenha dado à observação um caráter apologético, era evidente que não lhe desagradava dizer algo ligeiramente descortês.
—No entanto, tivemos filósofos que não careceram de influência no mundo do pensamento —sugeri eu.
—Hume e Berkeley? Os filósofos que ensinavam em Oxford quando eu estava ali preocupavam-se sempre em não ofender seus colegas teológicos. Não levavam suas reflexões até chegar à sua consequência lógica caso com isso arriscassem sua posição no ambiente universitário.
—O senhor estudou a moderna evolução da filosofia nos Estados Unidos? —perguntei-lhe.
—Refere-se ao pragmatismo? É o último refúgio daqueles que desejam acreditar no inacreditável. Sirvo-me muito mais do petróleo norte-americano do que de sua filosofia.
Seus juízos eram mordazes. Sentamo-nos novamente e tomamos outra xícara de chá. Falava em um inglês algo formal, mas idiomático, e de vez em quando se ajudava com uma frase em alemão; até onde era possível que um homem de caráter tão obstinado fosse influenciado, havia sido pela Alemanha. O método e a perseverança alemã o haviam impressionado profundamente, e teve uma demonstração manifesta de sua agudeza filosófica quando um erudito professor publicou em uma revista especializada um ensaio sobre um de seus trabalhos.
—Escrevi vinte livros —disse—. E esta é a única menção que foi feita a meu respeito em uma publicação europeia.
Mas um estudo da filosofia ocidental só havia servido, ao final, para convencê-lo de que a sabedoria seria encontrada, afinal, dentro dos limites dos cânones de Confúcio. Aceitava sua filosofia com convicção. Respondia às necessidades de seu espírito com uma integridade que fazia com que todos os ensinamentos recebidos no estrangeiro parecessem vãos. Eu estava especialmente interessado nesse aspecto porque vinha corroborar uma opinião minha de que a filosofia é, mais do que a lógica, uma questão de caráter: o filósofo acredita não de acordo com a evidência, mas de acordo com seu próprio temperamento, e seu pensamento, sua reflexão, serve simplesmente para tornar razoável aquilo que seu instinto considera como certo. Se o confucionismo conseguiu um apoio tão firme por parte dos chineses, é devido a que lhes deu explicações e conceitos em uma medida que nenhum outro sistema de pensamento pôde fazê-lo.
Meu anfitrião acendeu um cigarro. Sua voz, a princípio suave e fatigada, ia ganhando volume à medida que se interessava mais pelo que dizia. Não havia nele nada da calma do sábio. Era um polemista e um lutador que abominava o moderno clamor em favor do individualismo. Para ele, a sociedade era a unidade, e a família a base da sociedade. Defendia a antiga China e a antiga escola, a monarquia e os rígidos cânones de Confúcio. Irritava-se e falava em tom severo ao referir-se aos estudantes recém-chegados das universidades estrangeiras, que com mãos sacrílegas derrubavam a civilização mais antiga do mundo.
—Mas vocês sabem o que estão fazendo? —exclamava—. Qual é a razão pela qual se consideram superiores a nós? Acaso nos superaram nas artes ou nas letras? Foram nossos pensadores menos profundos que os de vocês? Foi nossa civilização menos elaborada, menos complexa, menos refinada que a de vocês? Homem, quando vocês ainda viviam nas cavernas e se cobriam com peles, nós já éramos um povo culto. Sabem vocês que tentamos um experimento que é único na história do mundo? Tentamos governar este grande país não pela força, mas pela sabedoria. E durante muitos séculos tivemos êxito. E então, por que o homem branco despreza o amarelo? Devo eu dizê-lo? Porque o homem branco inventou a metralhadora. Essa é sua superioridade. Nós somos uma horda indefesa, e vocês podem mandar-nos com um sopro à eternidade. Despedaçaram o sonho de nossos filósofos de que o mundo poderia ser governado pelo poder da lei e da ordem. E agora estão ensinando a nossos jovens o seu segredo. Impuseram-nos suas monstruosas invenções. Não sabem acaso que temos um gênio extraordinário para a mecânica? Não sabem que há neste país quatrocentos milhões de almas que constituem o povo mais prático e industrioso do mundo? Pensam que levaremos muito tempo para aprender? E o que será de sua superioridade quando o amarelo puder fazer tão boas metralhadoras quanto o branco e empregá-las com a mesma eficácia? Vocês recorreram à metralhadora, e pela metralhadora serão julgados.
Mas nesse momento fomos interrompidos. Uma menininha entrou silenciosamente e aproximou-se com gesto carinhoso do velho cavalheiro, enquanto fixava em mim seus olhos curiosos. Meu anfitrião disse-me que era sua filha mais nova. Rodeou-a com os braços e, murmurando palavras ternas, beijou-a afetuosamente. A menina vestia uma jaqueta negra e umas calças que mal lhe chegavam aos tornozelos, e às suas costas pendia uma longa trança. Havia nascido no mesmo dia em que a revolução teve um desfecho feliz com a abdicação do Imperador.
—Então pensei que minha filha era a anunciadora da Primavera, anunciadora do nascimento de uma nova época —disse—. Mas não foi senão a última flor do outono desta grande nação, de sua decadência.
Tirou de uma gaveta de sua escrivaninha algumas moedas e, depois de dá-las à menina, despediu-a com um beijo.
—Terá notado que uso trança —disse, tomando-a nas mãos—. É todo um símbolo. Eu sou o último representante da antiga China.
Relatou-me, em tom mais apaziguado agora, como os filósofos de outros tempos muito distantes viajavam de Estado em Estado com seus discípulos, ensinando a todos aqueles que eram dignos de aprender. Os reis os chamavam para integrar seus conselhos e os designavam governantes de suas cidades. Sua erudição era grande e suas frases eloquentes davam uma multicolorida vitalidade aos incidentes da história de seu país que me relatava. Não podia evitar considerá-lo como uma figura algo patética. Sentia-se com a capacidade necessária para governar o Estado, mas ali não havia rei que lhe confiasse o cargo; possuía grande abundância de conhecimentos que estava ansioso por transmitir aos inumeráveis estudantes que sua alma desejava, mas apenas acudiam a escutá-lo uns poucos e mesquinhos provincianos, obtusos e meio mortos de fome.
Uma ou duas vezes a discrição me havia feito sugerir que era hora de que eu me retirasse, mas não parecia muito disposto a deixar-me ir. Agora, por fim, vi-me obrigado a fazê-lo. Levantei-me, e ele tomou minha mão.
—Gostaria de oferecer-lhe algo como recordação de sua visita ao último filósofo da China, mas sou um homem pobre e não sei o que poderia dar-lhe que fosse digno de ser aceito pelo senhor.
Protestei, afirmando que a recordação de minha visita era em si mesma um presente inestimável. Sorriu suavemente.
—Os homens têm pouca memória nestes dias depravados, e gostaria de dar-lhe algo mais duradouro. Dar-lhe-ia algum de meus livros, mas o senhor não sabe ler chinês.
Olhou-me com amistosa perplexidade. De repente tive uma ideia.
—Dê-me uma amostra de sua caligrafia —disse-lhe.
—De fato lhe agradaria isso? —sorriu—. Em minha juventude julgavam que manejava o pincel de uma forma que não era de todo incorreta.
Sentou-se à sua escrivaninha, tomou uma folha branca de papel e colocou-a diante de si. Derramou depois algumas gotas de água sobre uma pedra, esfregou nela a barra de tinta e tomou seu pincel. Com amplo movimento do braço começou a escrever. E enquanto o observava recordei, um tanto divertido, algo mais que me haviam dito a seu respeito. Parecia que o velho cavalheiro, sempre que conseguia reunir, à custa de grandes esforços, algum dinheiro, gastava-o licenciosamente em certas ruas habitadas por damas, para designar as quais se emprega geralmente um eufemismo. Seu filho mais velho, pessoa de certa reputação na cidade, sentia-se vexado e humilhado pelo escandaloso desse comportamento, e apenas seu pronunciado senso de dever filial o impedia de repreender com a devida severidade o libertino. Atrevo-me a dizer que para um filho tal desregramento devia ser desconcertante, mas o estudioso da natureza humana podia considerá-lo com equanimidade. Os filósofos estão sempre inclinados a elaborar suas teorias no gabinete, formulando conclusões sobre uma vida que apenas conhecem por via alheia, indiretamente, e muitas vezes me pareceu que seus trabalhos teriam um significado mais preciso se eles mesmos se tivessem exposto às dificuldades que sobrevêm na vida comum dos homens. Eu estava disposto, pois, a considerar com indulgência os prazeres do velho cavalheiro em lugares ocultos. Talvez não tratasse senão de elucidar a mais inescrutável das ilusões humanas.
Terminou de escrever. Para secar a tinta, espalhou um pouco de cinza sobre o papel e, pondo-se de pé, entregou-mo.
—O que escreveu o senhor? —perguntei.
Parece-me que surgiu um leve brilho malicioso em seus olhos.
—Atrevi-me a oferecer-lhe dois pequenos poemas que me pertencem.
—Não sabia que o senhor era poeta.
—Quando a China ainda era um país incivilizado —respondeu sarcástico—, todos os homens educados podiam escrever versos, ao menos com elegância.
Tomei a folha de papel e observei os caracteres chineses: formavam sobre ela um desenho agradável.
—Não quer dar-me também uma tradução?
—Tradutore, tradittore —respondeu—. Não pode o senhor esperar que eu me traia a mim mesmo. Peça-a a algum de seus amigos ingleses. Aqueles que mais sabem acerca da China nada sabem, mas afinal encontrará alguém que seja capaz de proporcionar-lhe uma interpretação destes poucos versos, simples e imperfeitos.
Despedi-me dele, e com grande cortesia conduziu-me até minha liteira. Quando tive oportunidade, dei o poema a um sinólogo amigo meu, e esta é a versão que dele me fez. Confesso que, sem dúvida logicamente, senti-me algo desconcertado quando o li.
Você não me amava: sua voz era doce;
Seus olhos estavam cheios de riso; suas mãos eram ternas.
E então você me amou: sua voz era amarga;
Seus olhos estavam cheios de lágrimas; suas mãos eram cruéis.
Triste, triste é que o amor tenha feito você
Pouco amável.
Eu desejava que os anos passassem depressa,
Para que você perdesse
O brilho dos seus olhos, o viço aveludado da sua pele,
E todo o cruel esplendor da sua juventude.
Assim, só eu te amaria
E, enfim, você se importaria.
Os anos invejosos passaram muito rápido
E você perdeu
O brilho dos seus olhos, o viço aveludado da sua pele,
E todo o encantador esplendor da sua juventude.
Ah, mas eu não te amo agora
E não me importa se você se importa.