Contrato de Nove Meses
- fevereiro 4, 2026
Publicado em 1847, O Morro dos Ventos Uivantes é uma das obras mais intensas, perturbadoras e singulares da literatura inglesa.
Único romance de Emily Brontë, o livro desafia expectativas ao apresentar uma história de amor que está longe de ser idealizada ou reconfortante. Em vez disso, a autora constrói um retrato sombrio de obsessão, vingança e destruição emocional, ambientado em uma paisagem tão selvagem quanto seus personagens.
A narrativa gira em torno da relação entre Heathcliff e Catherine Earnshaw, duas figuras marcadas por um vínculo profundo, quase primitivo, que ultrapassa convenções sociais, morais e até mesmo a morte. Criados juntos na propriedade chamada Morro dos Ventos Uivantes, eles desenvolvem uma conexão visceral, baseada mais em reconhecimento e espelhamento do que em afeto romântico tradicional.
Catherine ama Heathcliff, mas escolhe se casar com Edgar Linton para garantir estabilidade social. Essa decisão desencadeia uma cadeia de ressentimentos que molda todo o enredo.
Heathcliff é, sem dúvida, um dos personagens mais complexos e controversos da literatura. Órfão, marginalizado e constantemente humilhado, ele cresce consumido por um sentimento de rejeição que se transforma em rancor. Seu amor por Catherine não é redentor; é possessivo, absoluto e destrutivo.
Após ser afastado e retornar anos depois com riqueza e poder, Heathcliff passa a executar uma vingança fria e calculada contra todos que, direta ou indiretamente, o feriram. O leitor não é convidado a simpatizar com ele, mas a compreendê-lo em sua dor e brutalidade.
Catherine, por sua vez, é uma personagem igualmente contraditória. Impulsiva, orgulhosa e emocionalmente instável, ela se recusa a abrir mão de sua identidade selvagem para se adequar plenamente à sociedade. Sua famosa declaração de que ela e Heathcliff são feitos da mesma matéria revela a essência da obra: o amor, aqui, não é escolha consciente, mas uma força inevitável e, muitas vezes, cruel. Catherine não é uma vítima passiva; suas decisões também alimentam o caos que se segue.
Um dos grandes méritos do romance está em sua estrutura narrativa. A história é contada de forma indireta, principalmente pela governanta Nelly Dean, a partir das observações de Mr. Lockwood, um inquilino recém-chegado à região. Essa mediação cria distanciamento e ambiguidade, permitindo que o leitor questione versões, motivações e julgamentos morais. Nada em O Morro dos Ventos Uivantes é simples ou totalmente confiável.
A ambientação desempenha um papel fundamental na obra. Os cenários áridos, os ventos incessantes e a natureza indomável refletem os conflitos internos dos personagens.
O Morro dos Ventos Uivantes, em especial, funciona quase como um personagem próprio: hostil, isolado e impregnado de emoções extremas. Já a propriedade vizinha, a Granja dos Tordos, simboliza ordem, civilidade e repressão emocional — um contraste direto com a paixão caótica do morro.
Emily Brontë rompeu com os padrões românticos de sua época ao apresentar um amor que não salva, não consola e não transforma positivamente. Pelo contrário, o sentimento entre Heathcliff e Catherine corrói tudo ao redor, atravessando gerações e deixando marcas profundas nos descendentes dos personagens originais. Ainda assim, há uma estranha beleza nessa devastação: uma honestidade brutal sobre a natureza humana e seus impulsos mais sombrios.
Embora frequentemente classificado como um romance de amor, O Morro dos Ventos Uivantes é, na verdade, uma obra sobre obsessão, identidade e a incapacidade de conciliar desejo e sociedade. Sua leitura pode ser desconfortável, mas é justamente essa inquietação que o torna atemporal. Emily Brontë não oferece respostas fáceis nem personagens exemplares — oferece, sim, um espelho cruel da alma humana.
Mais de um século após sua publicação, o livro continua provocando debates, interpretações e emoções intensas. É uma obra que não busca agradar, mas marcar. E consegue.

Emily Brontë nasceu em 30 de julho de 1818, em Thornton, Inglaterra, e foi uma das figuras mais enigmáticas da literatura inglesa.
Filha de um pastor anglicano, cresceu em um ambiente isolado ao lado dos irmãos Charlotte, Anne e Branwell Brontë, com quem desenvolveu desde cedo uma imaginação fértil e intensa. Reservada e avessa à vida social, Emily encontrou na escrita e na natureza selvagem dos charnecos de Yorkshire sua principal forma de expressão.
Em 1847, publicou seu único romance, O Morro dos Ventos Uivantes, inicialmente sob o pseudônimo masculino Ellis Bell, como era comum às escritoras da época. A obra causou estranhamento por sua violência emocional e pela forma crua com que retrata o amor e a obsessão, sendo mal recebida por muitos críticos contemporâneos.
Emily morreu precocemente aos 30 anos, em 1848, vítima de tuberculose. Apesar de sua breve vida literária, deixou um legado duradouro, sendo hoje reconhecida como uma das maiores escritoras do século XIX.
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